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InteligĂȘncia Artificial ou O Golem Moderno

  • hiagocordioli
  • 13 de set. de 2025
  • 2 min de leitura

Na tradição mĂ­stica judaica, existe uma lenda de que o rabino Judah Loew ben Bezalel, o Maharal de Praga, no sĂ©culo XVI, teria moldado um corpo de barro nas margens do rio Moldava e, atravĂ©s de rituais cabalĂ­sticos, inscreveu na testa do corpo a palavra “emet” (ŚŚžŚȘ) — que em hebraico significa “verdade”.

Este ato deu vida Ă  criatura, que ele chamou de “Golem” (que significa “tolo", "imbecil", ou "estĂșpido"). Ele era forte, obediente e nĂŁo falava, mas seguia fielmente as ordens do rabino. Segundo a lenda, ele criou o Golem para proteger a comunidade judaica de Praga contra perseguiçÔes e acusaçÔes infundadas, como os falsos libelos de sangue.

No entanto, como muitos mitos sobre criaçÔes humanas que ganham vida — de Prometeu a Frankenstein —, o Golem passou a representar um risco: quanto mais poder recebia, mais incontrolĂĄvel se tornava.

Com o tempo, a criatura começou a agir de forma violenta, destrutiva, e jå não distinguia proteção de ataque. Em algumas versÔes, ele enlouquece por não poder amar, ou por não ter alma. Em outras, apenas segue ordens literalmente, sem senso de proporção, o que jå basta para tornå-lo perigoso.

Temendo pela segurança da cidade e de sua prĂłpria comunidade, o rabino decidiu desativar a criatura. Para isso, apagou a primeira letra da palavra “emet” (ŚŚžŚȘ), transformando-a em “met” (ŚžŚȘ) — que significa “morto”. Ao perder o “alef” inicial, o Golem colapsa, voltando a ser apenas barro.

É difĂ­cil nĂŁo ver um paralelo com os debates atuais sobre InteligĂȘncia Artificial.

Hoje, construĂ­mos algoritmos que aprendem, tomam decisĂ”es, escrevem textos, fazem diagnĂłsticos, criam imagens e atĂ© compĂ”em mĂșsicas. Ferramentas poderosas, que, como o Golem, carregam potencial para o bem — e tambĂ©m para o caos, caso escapem da supervisĂŁo humana.

A IA nĂŁo Ă© feita de barro, mas de dados. NĂŁo Ă© animada por palavras sagradas, mas por cĂłdigos e parĂąmetros. NĂŁo protege vilarejos, mas organiza sistemas inteiros de consumo, justiça, finanças, saĂșde e segurança. E ela nĂŁo Ă© tola como o Golem - que nĂŁo falava, nem pensava por si - ela Ă© inteligente, criativa, adaptĂĄvel, autĂŽnoma.

Assim como o Golem, a IA é um espelho do seu criador. Seus limites morais são os nossos. Seus riscos nascem da nossa omissão, arrogùncia ou desatenção.

Estamos alimentando sistemas cada vez mais potentes, que tomam decisÔes em fraçÔes de segundo, aprendem com o mundo e, em muitos casos, escapam à compreensão até dos seus próprios criadores.

A histĂłria do Golem nos lembra que toda criação precisa de freios. A InteligĂȘncia Artificial, diferente do Golem, nĂŁo Ă© burra. Mas justamente por isso, pode ser ainda mais perigosa.

Nos perguntamos, entĂŁo: onde estĂĄ o nosso “met” (ŚžŚȘ)? Quais “letras” ainda podemos apagar para conter o que criamos? SerĂĄ que teremos tempo? Ou chegaremos ao ponto em que nada mais poderĂĄ deter uma criação que superou seus limites Ă©ticos, sociais e existenciais?

Será que estamos escrevendo “emet” na testa de algo que não poderemos mais apagar?

 
 
 
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©2023 por Hiago Cordioli. 

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